Comandante do voo 2283 foi promovido sem experiência mínima e 'coaptado' para omitir panes, diz PF

  • 08/08/2026
(Foto: Reprodução)
Voepass: entenda cadeia de responsabilidades que levou PF a indiciar 16 pessoas O relatório final da Polícia Federal sobre a queda do avião da Voepass, que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP) em 2024, aponta que o comandante Danilo Romano foi promovido sem ter a experiência mínima exigida pela própria companhia e acabou "coaptado" pela gestão para omitir panes em troca de uma ascensão rápida na carreira. Segundo depoimento do comandante Marcelo Mantovani, Romano chegou à Voepass depois de pilotar jatos Airbus e assumiu o comando de aeronaves ATR sem experiência anterior no modelo. A empresa exigia ao menos 1.000 horas de voo em ATR para a promoção. A promoção foi autorizada durante a gestão de Rafael Gimenez Rodrigues na chefia de treinamento. Outro piloto ouvido pela PF, Luiz Cláudio de Almeida, afirmou que o próprio Romano dizia ter sido promovido rapidamente por causa de uma "relação de amizade e favores na chefia". LEIA TAMBÉM: Da denúncia ao julgamento: os próximos passos após PF indiciar 16 por queda de avião da Voepass Quem são os indiciados pelo desastre aéreo Inspetor da Anac presenciou falha em sistema de degelo em voo 11 meses antes da queda Famílias de vítimas planejam ação coletiva Para a PF, a rápida ascensão deixou Romano mais suscetível às pressões internas para não registrar problemas técnicos. O piloto Paulo Eduardo Pereira dos Santos relatou que comandantes recém-promovidos costumavam ficar "pianinhos" diante da chefia, enquanto profissionais mais experientes tinham mais segurança para recusar voos e exigir o registro de panes. "A coaptação do comandante ROMANO aos interesses escusos da gestão, em não reportar falhas, sob a vantagem de uma promoção rápida, é uma das causas da produção do perigo concreto, visto que o referido tripulante não registrava as falhas no sistema de-ice. Também não foi capaz de impedir o resultado agravador (sinistro aéreo) ante a sua inexperiência com aquele tipo de aeronave, como descrevem os depoimentos coletados", descreve o laudo da PF. Danilo Santos Romano, comandante do avião da VoePass que caiu em Vinhedo (SP) Reprodução Pilotos rigorosos eram deixados de lado O comandante Luiz Cláudio de Almeida contou à PF que foi contratado em 2019 com experiência em ATR, mas acabou mantido como copiloto. Segundo ele, colegas ligados à chefia diziam que pilotos mais rigorosos não eram promovidos porque poderiam "parar aviões" ao seguir as regras técnicas à risca, o que afetaria a operação da companhia. Almeida também afirmou ter presenciado pedidos para que problemas técnicos não fossem registrados no livro de bordo, evitando que aeronaves fossem retiradas de operação. Em um dos voos com Danilo Romano, Almeida relatou um problema grave no motor. Segundo ele, Romano inicialmente não reconheceu a pane e resistiu a comunicá-la. Almeida disse que ameaçou desembarcar caso a falha não fosse reportada. Depois de outros conflitos, Almeida pediu para não voar mais com Romano, alegando condutas que considerava inseguras. A chefia retirou os dois da mesma escala. No lugar de Almeida, passou a voar com Romano o copiloto Humberto de Campos, que mais tarde foi escalado para o voo 2283 e morreu no acidente. Humberto Alencar, copiloto da Voepass, morto em queda de avião em Vinhedo Arquivo pessoal Inexperiência afetou reação ao gelo A PF também relaciona a pouca experiência de Romano no ATR à forma como a tripulação reagiu ao acúmulo de gelo no voo 2283. Marcelo Mantovani explicou que pilotos vindos de jatos Airbus estavam acostumados a outro tipo de operação. Segundo ele, no ATR, o risco de formação de gelo exige atenção constante e uma reação rápida. Na avaliação do piloto, Romano ainda não tinha essa experiência incorporada e, por isso, não iniciou imediatamente uma descida quando o gelo começou a se formar. A PF concluiu que, embora Romano tivesse habilitação e treinamento formal, a falta de experiência prática no modelo pesou no acidente. Em nota, a Voepass afirmou que sempre seguiu os protocolos de segurança, manutenção e treinamento previstos pela Anac. A empresa também disse que os pilotos eram treinados para situações de formação de gelo e que a tripulação do voo 2283 era habilitada e devidamente certificada. Leia o posicionamento completo abaixo. Avião com 62 pessoas a bordo caiu em condomínio de casas em Vinhedo, no interior de SP. Ninguém sobreviveu Miguel Schincariol/AFP Relembre o acidente O acidente aconteceu em 9 de agosto de 2024. O ATR 72-500, matrícula PS-VPB, fazia o voo entre Cascavel (PR) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) quando caiu no quintal de uma casa em um condomínio de Vinhedo (SP). As 62 pessoas a bordo, incluindo 58 passageiros e quatro tripulantes, morreram. Nenhum morador da residência atingida ficou ferido. Foi o acidente mais grave da aviação brasileira desde o desastre com o voo da TAM, em 2007. Acidente Voepass: PF conclui investigação criminal e indicia 16 por queda de avião O que diz a Voepass "A VOEPASS informa que a segurança operacional sempre foi sua prioridade. Ao longo de mais de 30 anos de atuação na aviação brasileira, a companhia adotou rigorosamente todos os protocolos de segurança, manutenção e capacitação de tripulações previstos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). A empresa reforça que sua atuação sempre esteve pautada pelos mais elevados padrões de segurança da aviação, contando, desde 2012, com a certificação IOSA (IATA Operational Safety Audit), concedida pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) às companhias aprovadas em rigorosa auditoria internacional de segurança operacional. Os treinamentos de pilotos contemplavam os procedimentos previstos para o enfrentamento de condições de formação de gelo, incluindo medidas como alteração de altitude e velocidade, conforme as orientações do fabricante da aeronave e os protocolos operacionais aplicáveis. As tripulações eram permanentemente orientadas a cumprir rigorosamente esses procedimentos, de acordo com cada cenário operacional. A tripulação do voo 2283 era composta por profissionais experientes, devidamente habilitados e certificados, que somavam mais de 5 mil horas de voo, com treinamentos técnicos, certificações e avaliações médicas regularmente atualizados, sem qualquer registro prévio que comprometesse sua aptidão para o exercício da função. Desde o início das investigações, a VOEPASS colaborou integralmente com as autoridades, disponibilizando documentos, diários de bordo, registros operacionais e relatórios técnicos ao Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e à Polícia Federal. A companhia compreende que o relatório da Polícia Federal integra a fase investigatória e aguardará os próximos desdobramentos processuais, e, se for o caso, exercerá plenamente seu direito de defesa, nos termos da legislação vigente. A VOEPASS reitera sua solidariedade às famílias das vítimas e reafirma que permanece à disposição das autoridades, das instituições competentes e dos demais agentes envolvidos para prestar todos os esclarecimentos necessários". Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/08/08/comandante-do-voo-2283-foi-promovido-sem-experiencia-minima-e-coaptado-para-omitir-panes-diz-pf.ghtml


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