Carta, dinheiro e caminhonete: o confronto de versões sobre morte de jovem por pecuarista no interior de SP

  • 04/11/2026
(Foto: Reprodução)
Caso de jovem morta por pecuarista tem confronto de versões no interior de SP; entenda O pecuarista João Roberto Bolelli, de 62 anos, suspeito de matar a ex-companheira Priscila Lacerda Custodio, de 24 anos, em Rifaina (SP), foi encontrado morto com uma carta escrita à mão e cerca de R$ 15 mil nas roupas, segundo o boletim de ocorrência. O documento, registrado na segunda-feira (2), também cita uma munição de revólver calibre .38 intacta perto do corpo. Nenhuma arma aparece entre os objetos apreendidos, e o conteúdo da carta não foi divulgado até a última atualização desta reportagem. A causa da morte também não foi divulgada. A advogada da família do pecuarista, Lauriane Baldini França, disse ao g1 nesta terça-feira (3) que, segundo parentes, o laudo prévio apontou causa desconhecida. Na segunda, ela tinha falado em infarto, com base em conversas informais com a perícia. ✅Clique aqui para seguir o canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp A advogada afirma ainda que R$ 100 mil em espécie desapareceram e contesta pontos dos relatos do namorado e de testemunhas sobre o crime. O advogado Diogo Máximo, que representa a família de Priscila, teve acesso ao inquérito nesta terça e disse ao g1 que a história do dinheiro não aparece na investigação. Segundo ele, é preciso cuidado ao falar dos dois, porque nenhum deles pode se defender. Para o advogado, a família do pecuarista tenta “desqualificar a Priscila”. João Roberto Bolelli e Priscila Lacerda Custodio Reprodução Procurada pelo g1, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) confirmou as informações divulgadas em boletim de ocorrência, mas não informou o teor da carta apreendida com o corpo nem se o suposto desaparecimento de R$ 100 mil relatado pela família do pecuarista é investigado. A pasta também não deu detalhes sobre as causas da morte. O que falta esclarecer A causa e a data da morte do pecuarista; O conteúdo da carta; Onde está a arma usada no crime; Se houve desaparecimento de R$ 100 mil, como afirma a família do pecuarista; Quem eram as pessoas que, segundo as testemunhas, chegaram ao local do crime; Se os dados do rastreador, o celular e as imagens da GCM fazem parte da investigação. O que foi encontrado com o corpo O corpo de Bolelli foi encontrado na manhã de segunda-feira (2) por um neto, em uma área de mata fechada perto da casa dele, na Fazenda Gordura, em Rifaina. O boletim foi registrado como morte suspeita. Segundo o documento, os policiais militares encontraram nas roupas do pecuarista uma carta manuscrita, um celular, um relógio, a chave de uma caminhonete e dinheiro. Perto do corpo, havia uma munição de revólver calibre .38 intacta. Os policiais também entregaram à Polícia Civil um canivete. As notas descritas pelos policiais somam R$ 14.926. O boletim ressalva que não foi possível conferir a quantia exata, porque os objetos estavam molhados e o corpo estava em avançado estado de decomposição. O advogado da família de Priscila disse ao g1 que viu as roupas, o celular e a carta chegarem à delegacia. Segundo ele, só a polícia conhece o conteúdo da carta. Do que o pecuarista morreu O boletim registra que os policiais não conseguiram ver se havia lesões no corpo. Segundo o documento, a funerária informou que ele seria levado ao Serviço de Verificação de Óbito (SVO) de Franca (SP). Na segunda-feira (2), a advogada da família descartou morte violenta. Ela disse à EPTV que o pecuarista tinha diabetes e fazia tratamento cardíaco. “Pela pré-conversa com a perícia e com a GCM, foi um infarto, e provavelmente no dia dos fatos”, afirmou. Nesta terça (3), ela disse ao g1 que, apesar de terem falado “informalmente” em infarto, a família foi informada de que o laudo prévio apontou causa desconhecida. A advogada afirmou que ainda não viu o documento. A causa e a data da morte só serão confirmadas oficialmente pelos laudos. Priscila Lacerda Custodio foi morta a tiro pelo companheiro, João Roberto Bolelli Arquivo pessoal O dinheiro A advogada da família do pecuarista afirma que R$ 100 mil em espécie desapareceram. “Estamos na investigação de onde foi parar esse dinheiro”, disse à EPTV na segunda-feira (2). Segundo ela, não houve movimentação na conta bancária dele. Ao g1, nesta terça, ela disse que a família não liga o valor a Priscila: “Em momento algum estamos falando que esse dinheiro foi gasto com a Priscila”. Segundo a advogada, o dinheiro encontrado com o corpo não faz parte dos R$ 100 mil. Ela afirma que é o valor que o pecuarista tinha levado a um leilão antes de ir buscar a caminhonete. De acordo com a EPTV, a família do pecuarista pretende comunicar o desaparecimento à polícia depois do enterro. Sobre o dinheiro, o advogado da família de Priscila disse à EPTV: “Nós vamos ver dentro do inquérito policial”. A caminhonete Priscila foi a Rifaina em 27 de outubro, com o irmão e uma amiga, para devolver a caminhonete do pecuarista. À noite, foi baleada às margens da Rodovia Cândido Portinari (SP-334). Segundo o boletim do crime, Bolelli fugiu no veículo, que foi encontrado no dia seguinte, na mesma região onde o corpo dele foi achado, de acordo com a EPTV. Os relatos do irmão e da família do pecuarista coincidem em um ponto: a caminhonete era de Bolelli e seria devolvida. A advogada afirma que o veículo, uma Hilux, foi emprestado e “nunca foi dado de presente” a Priscila. As versões divergem sobre quando a jovem saiu de Rifaina com a caminhonete. O irmão contou à EPTV que Priscila voltou para Perdizes (MG) na quinta-feira (22). Ele disse que só soube depois do crime que o pecuarista tinha batido nela e não queria deixá-la voltar. A advogada afirma que Priscila saiu da fazenda do pecuarista na caminhonete na sexta-feira (23), depois de uma viagem dos dois a Franca. Segundo ela, um neto confirmou a existência de áudios no celular de Bolelli em que ele diz que Priscila poderia devolver o veículo na terça-feira (27). O celular foi apreendido com o corpo, segundo o boletim. A sexta-feira (23) é a data da agressão que Priscila relatou à amiga, segundo o depoimento dela. A amiga também disse à polícia que o pecuarista afirmava que não permitiria que a jovem voltasse a Perdizes. LEIA TAMBÉM Pecuarista suspeito de matar ex-companheira 38 anos mais nova em Rifaina, SP, é encontrado morto Namorado de jovem morta por pecuarista em SP diz que homem a perseguia e não aceitava fim do relacionamento Jovem morta por pecuarista em SP tentava terminar relação e relatou agressões, segundo testemunhas Defesa nega que pecuarista que matou jovem tenha recorrido a detetive e diz que casal viajou junto antes do crime Detetive ou rastreador? Em entrevista ao g1, Samuel Ramos, namorado de Priscila, disse que Bolelli não aceitava que ela se relacionasse com outra pessoa e chegou a contratar um detetive para segui-la. Em depoimento à Polícia Civil, a amiga contou que a jovem relatou ter sido ameaçada pelo pecuarista e disse que ele tinha contratado pessoas para monitorá-la em Minas Gerais. A advogada da família de Bolelli nega. “Não existe detetive. Existe o rastreador da caminhonete, obrigatório pela seguradora”, afirmou à EPTV. Segundo ela, o rastreador é ligado ao celular de um dos netos do pecuarista. A advogada disse que foi por meio dele que a família descobriu que Bolelli e Priscila estiveram juntos em Franca na quinta e na sexta-feira anteriores ao crime (22 e 23). Até a última atualização desta reportagem, não havia informação sobre se os dados do rastreador fazem parte da investigação. ‘Capangas’ ou netos? O irmão e a amiga de Priscila disseram à Polícia Civil que, além do pecuarista, outras pessoas chegaram ao local do crime em veículos diferentes. Elas não foram identificadas, segundo o boletim de ocorrência. À EPTV, o irmão, Geovane Santana, contou que Bolelli estava acompanhado de duas pessoas. Ele disse acreditar que uma delas era neto do pecuarista e que foi esse jovem quem levou Priscila ao hospital. Segundo Geovane, a outra pessoa foi embora. O irmão afirmou que os acompanhantes não participaram do disparo. “O neto dele não tinha nada a ver”, disse. “Foi ele que tomou a ação”, afirmou, sobre o pecuarista. A advogada nega que Bolelli estivesse acompanhado de “capangas”. Segundo ela, câmeras da Guarda Civil Municipal (GCM) mostram apenas quatro veículos: o carro da amiga de Priscila, a caminhonete, o Corolla branco em que o pecuarista chegou e o carro do neto que socorreu a jovem. Ela disse que outro neto passou pelo local depois do disparo: “Vê os fatos, mas não para, porque ele ficou assustado”. As imagens citadas pela defesa não foram divulgadas. Caminhonete que Priscila foi a Rifaina devolver ao suspeito. Segundo o boletim, Bolelli fugiu no veículo após o crime Câmera de segurança O relacionamento As versões também divergem sobre quando a relação começou e se ainda existia em outubro. Segundo o boletim do crime, Priscila e Bolelli tinham um relacionamento casual havia quase quatro meses. Em depoimento, a amiga disse que a relação começou em julho. Samuel afirmou ao g1 que a relação casual entre os dois começou no fim de 2025 e que Priscila tinha rompido os encontros antes de conhecê-lo. À EPTV, ele disse que o namoro estava perto de completar cinco meses e que, neste 3 de novembro, os dois completariam um mês morando juntos, em Perdizes. Ele contou também que tinha pedido Priscila em casamento. A advogada da família do pecuarista afirma que os dois se relacionavam desde 2025 e viajaram juntos a Franca em 22 e 23 de outubro. Segundo ela, na sexta, os dois fizeram em uma concessionária o orçamento de um carro de R$ 109 mil. Bolelli voltou sozinho à loja na segunda-feira (26), de acordo com a advogada. Priscila Lacerda e Samuel Ramos; jovem de Perdizes morta por pecuarista em SP Arquivo pessoal/Samuel Ramos Ela diz que a concessionária tem imagens dos dois, mas só as fornece com ofício judicial. A advogada afirma também que vai apresentar fotos dos dois em viagens e que vídeos publicados por Priscila em abril mostram a caminhonete, mas não o pecuarista. O advogado da família de Priscila contesta. “Se alguém foi comprar um carro, não foi a Priscila”, disse ao g1. Segundo ele, Priscila, que era videomaker, prestou serviços ao pecuarista no meio agropecuário. As duas famílias afirmam que não conheciam a relação. A advogada do pecuarista diz que os parentes dele não sabiam do relacionamento. O advogado da família de Priscila diz que a mãe da jovem não conhecia Bolelli. Segundo ele, em Perdizes era “público e notório” que ela estava com Samuel. Perguntado sobre como era a relação entre Priscila e o pecuarista, ele disse que vai esperar a perícia nos celulares. “Eu não quero ser leviano a ponto de afirmar uma coisa que eu não tenho 100% de certeza”, afirmou. Para a família do pecuarista, a viagem contradiz os relatos de que Priscila não mantinha mais um relacionamento com ele. Na noite do crime, o irmão contou à polícia que ouviu Priscila dizer que queria ir embora e que não desejava continuar o relacionamento. À EPTV, ele disse que ouviu a irmã acusar o pecuarista: “Você me agrediu, você me bateu”. Segundo o irmão, Bolelli negou. A amiga disse à polícia que, na discussão, o pecuarista também questionou uma viagem de Priscila a Sacramento (MG) e a acusou de estar se encontrando com outro homem. Para o delegado Fábio Branquinho, os dois “já estavam entrando em desacordo com relação ao desfecho desse namoro”. O que diz a família de Priscila Diogo Máximo foi a Franca nesta terça-feira (3) para ter acesso ao inquérito. Segundo ele, a família da jovem quer que a investigação vá até o fim. “A Priscila foi vítima de um feminicídio. Ponto”, afirmou ao g1. O advogado disse que as afirmações da família do pecuarista terão de ser comprovadas. “Eles vão ter que provar tudo isso dentro do inquérito, dentro do processo. Nós estamos aqui para proteger o nome da Priscila.” Ele contou que conversou com a mãe da jovem e que ainda não tinha falado com o irmão e a amiga que estavam com ela no dia do crime. LEIA MAIS Pecuarista achado morto após matar jovem não tinha marcas de violência e pode ter sofrido infarto, diz defesa Pecuarista suspeito de matar ex-companheira em Rifaina, SP, é encontrado morto Jovem percorreu 100 km para devolver caminhonete e foi morta pelo namorado na frente do irmão e da amiga Irmão que viu jovem ser morta em SP relata como pecuarista 38 anos mais velho a matou Quem é o pecuarista suspeito de matar companheira 38 anos mais nova em SP Irmão de jovem morta por pecuarista diz que ela trabalhava desde os 16 anos Região onde pecuarista foi encontrado morto em Rifaina (SP) dias depois de matar jovem de 24 anos. Reprodução/ EPTV O que acontece agora Com a morte do suspeito, ele não pode mais ser punido pelo crime. A lei chama isso de extinção da punibilidade. Em entrevista ao vivo à EPTV, o advogado João Pedro Silvestrini explicou que a investigação continua para apurar se o pecuarista agiu sozinho ou teve ajuda. Se houver participação de outras pessoas, o Ministério Público pode apresentar denúncia contra elas. Segundo ele, a família da vítima também pode pedir indenização na Justiça ao espólio, que é o conjunto de bens deixado pelo pecuarista. O advogado da família de Priscila disse que quer a conclusão do inquérito, “independente da morte dele”. A advogada da família do pecuarista disse ao g1 que se reuniria com a polícia na quarta-feira (4). Depois disso, segundo ela, vai falar sobre a carta, o dinheiro, a perícia no celular e o laudo. Linha do tempo 2018 a 2022: Bolelli é preso e, depois, condenado por descumprir uma medida protetiva concedida a outra ex-companheira. 2025: começo da relação com Priscila, segundo a família do pecuarista. Samuel fala em fim de 2025. Junho de 2026: Priscila e Samuel começam a namorar, segundo ele. Julho: começo da relação casual com o pecuarista, segundo a amiga. Início de outubro: Priscila e Samuel passam a morar juntos em Perdizes, segundo ele. Quinta-feira (22 de outubro): segundo a família do pecuarista, Priscila e Bolelli viajam a Franca. Segundo o irmão, Priscila volta a Perdizes na caminhonete. Sexta-feira (23): segundo a família do pecuarista, os dois fazem o orçamento de um carro em Franca e, depois, Priscila sai da fazenda dele na caminhonete. É a data da agressão relatada por Priscila à amiga. Segunda-feira (26): Bolelli volta sozinho à concessionária, segundo a advogada. Terça-feira (27): Priscila vai a Rifaina com o irmão e a amiga para devolver a caminhonete. À noite, é baleada e morre. Quarta-feira (28): a caminhonete é encontrada, e a Justiça decreta a prisão preventiva do pecuarista. Priscila é velada e sepultada em Perdizes. Segunda-feira (2 de novembro): o corpo de Bolelli é encontrado com carta, dinheiro e uma munição. Priscila Lacerda Custodio foi morta a tiro pelo companheiro, João Roberto Bolelli Arquivo pessoal Histórico do suspeito Em junho de 2018, Bolelli foi preso preventivamente por descumprir uma medida protetiva concedida a outra ex-companheira. A prisão foi revogada, e ele foi solto seis dias depois. Em dezembro de 2021, a Justiça de Franca o condenou a três meses e 15 dias de detenção, em regime aberto, por descumprir a medida. O Tribunal de Justiça de São Paulo manteve a condenação em 2022. Em outubro de 2020, ele já tinha sido condenado a 15 dias de prisão simples, com suspensão condicional da pena, pela contravenção de vias de fato, que é a agressão sem lesão corporal. A condenação se referia a fatos de dezembro de 2017. Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região

FONTE: https://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2026/11/04/carta-dinheiro-e-caminhonete-o-confronto-de-versoes-sobre-morte-de-jovem-por-pecuarista-no-interior-de-sp.ghtml


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